>> Revista Veja - Edição 1984
29.11.2006
Auto-retrato
Servan-Schreiber
Jean-Pierre Muller/AFP
Ginástica, ômega-3 e sentimentos positivos. Essas são algumas das indicações do psiquiatra francês David Servan-Schreiber contra a ansiedade e a depressão. Remédios, só nos casos mais agudos. Aos 45 anos, autor do best-seller Curar, de 2004, ele lançou o livro Sete Passos para Curar – Guia Prático da Nova Medicina das Emoções (Sá Editora). De Paris, onde mora, ele falou à repórter Anna Paula Buchalla.
OS ANTIDEPRESSIVOS NÃO TÊM NENHUMA UTILIDADE?
Só nos casos mais graves de depressão, quando o paciente não consegue sair da cama e não há nenhuma alternativa de tratamento. Eu não sou contra remédios. O problema é que há um abuso no uso desses medicamentos. Nas grandes cidades, pelo menos uma em cada dez pessoas toma antidepressivos. É um contingente enorme de pessoas, principalmente mulheres. Se uma mulher vai ao médico, há 30% de probabilidade de ela sair de lá com uma receita de antidepressivo, não importa o motivo que a levou à consulta. Isso não faz o menor sentido. Na Inglaterra, costuma-se indicar para a maioria dos pacientes diagnosticados com depressão uma série de alternativas aos medicamentos. Pode ser exercício físico, uma medida comprovadamente eficaz contra o mal e cujos efeitos colaterais são a redução da pressão arterial e a perda de peso. Meditação e ioga também já se mostraram úteis contra a depressão.
MUITOS ESTUDOS MOSTRAM QUE ATUALMENTE AS PESSOAS ESTÃO MAIS PROPENSAS À DEPRESSÃO DO QUE NO PASSADO.
Há inúmeros falsos diagnósticos, mas é verdade que a doença não só avançou em relação a trinta anos atrás como tende a se manifestar mais cedo. Ainda não sabemos exatamente por que isso está ocorrendo. Acredito, no entanto, que se deva ao fato de que estamos mais individualistas e socialmente desorganizados – o que nos torna mais propensos a sentimentos de abandono e solidão. Além disso, hoje em dia temos de ser os melhores em tudo. Temos de ter dinheiro, ser bonitos, bons amantes, ótimos pais, um bom marido ou uma boa mulher. Há outra questão igualmente importante: a nutrição. Desde a II Guerra Mundial, a qualidade dos alimentos mudou dramaticamente. Até então, a alimentação dos animais era bastante diversificada. Eles comiam os legumes e vários tipos de grãos que encontravam nos pastos. Com isso, as carnes, as manteigas, os queijos e os ovos eram ricos em ácidos graxos ômega-3. Esse tipo de gordura é essencial para o bom funcionamento do cérebro, ao estabilizar o humor, controlar a irritabilidade e a agressividade. Hoje, os animais são alimentados apenas com milho e soja. Ou seja, nossa dieta perdeu uma de suas principais fontes de ômega-3. E dietas pobres em ômega-3 resultam em pessoas mais irritadas e agressivas.
O SENHOR DEFENDE O PODER DA MENTE E DAS EMOÇÕES NA CURA DE DIVERSOS DISTÚRBIOS. ESSAS COISAS FUNCIONAM COMO PLACEBO?
O escritor americano Andrew Solomon, autor do livro O Demônio do Meio-Dia, em que relata sua experiência com a depressão profunda, costuma dizer que a discussão em torno do efeito placebo só faz sentido quando se fala em doença física. Quando, no entanto, vamos para o campo dos distúrbios psiquiátricos, como a depressão ou a ansiedade, essa discussão perde o sentido. Se os benefícios do tratamento são justamente a eliminação dos sintomas, então não importa se é placebo ou não. O que importa é que funcionou. Uma vítima de câncer pode até achar que está livre da doença ao tomar um placebo, mas o tumor continua lá. É totalmente diferente do que acontece com um paciente com depressão. Se ele acredita ter-se livrado da depressão, então, de fato, naquele momento está livre dela.
MAS NÃO HÁ UM CERTO EXAGERO NA CRENÇA DE QUE HÁBITOS SAUDÁVEIS E PENSAMENTOS POSITIVOS SÃO GARANTIA DE CORPO E MENTE SÃOS?
Eu não sou guru da felicidade. Sou apenas médico. Sei ajudar as pessoas que estão sofrendo. O que faço para mim, e recomendo aos outros, é manter uma dieta rica em ômega-3, praticar exercícios e investir em relacionamentos saudáveis. Os métodos de tratamento naturais, contudo, não são patenteáveis e não há indústria que possa investir nisso.
http://veja.abril.uol.com.br/idade/exclusivo/291106/sumario.html
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