Livro de viagem (Valor Econômico, 30/04/2004)
Relançamento traz registros da aventura do futuro médico Guevara e do bioquímico Granado
Sérgio Amaral Silva
Como se formou a aguda consciência social de Che Guevara, que o levava a acreditar na luta armada como o melhor caminho para garantir a justiça? Pelo menos uma parte da resposta poderá ser buscada em breve nas telas: Diários de Motocicleta , adaptado de um livro de Guevara, virou fIlme dirigido por Walter Sanes, e irá representar o Brasil na disputa pela Palma de Ouro em Cannes.
No início de 1952, com o amigo bioquímico Alberto Granado , Guevara , que estudava medicina, partiu na motocicleta deste para uma viagem da Argentina à Venezuela, cruzando Chile, Peru e Colômbia.
O próprio Guevara afirmou que a aventura de oito meses o modificara:”A pessoa que tomou estas notas morreu no dia em que pisou novamente o solo argentino. A pessoa que está agora reorganizando e polindo estas mesmas notas, eu, não sou mais eu, pelo menos não sou o mesmo que era antes. Esse vagar sem rumo pelos caminhos de nossa Maiúscula América me transformou mais do que me dei conta”.
Como o americano Jack Kerouac faria mais tarde, em On the Road (1957), Guevara registrou suas impressões em cartas que escrevia aos pais e aos amigos. Reunidas em livro, saíram no Brasil há alguns anos com o nome de Primeira Viagem pela Editora Scritta, relançado pela Sá Editora com o título De Moto pela América do Sul .
Na legendária viagem, Guevara e Granado mentiam ao se anunciar como “especialistas em leprologia, já tendo curado mais de três mil pacientes”, para obter boa acolhida das pequenas comunidades ao longo do percurso. Apesar disso e de constatar as precárias condições sanitárias dos nativos, não consta que tenham trabalhado na área de saúde nesse período.
Além de serviços braçais esporádicos, as fontes de receita dos viajantes eram tão originais quanto uma coleta feita pelos doentes de um hospital, ou o ganho na mesa de jogo. Com isso, chegaram a acumular algum dinheiro, “mas exploradores de nossa estatura preferem morrer a pagar pelo conforto burguês de um hotel”, diz Guevara. Continuaram buscando hospedagem e alimentação grátis nos hospitais ou na Guarda Civil. Como a moto ficou inutilizada quando ainda cruzavam o Chile, a carona foi o principal meio de transporte em boa parte do trajeto.
Observações de natureza política estão presentes em críticas aos Estados Unidos, retratados como o “cansativo amigo ianque” que o Chile deveria “sacudir de suas costas”. Também há referências à “profunda tragédia que circunscreve a vida do proletariado em todo o mundo”, pregando-se o pan-americanismo, contra “qualquer provincialismo imbecilizante”.
A jornada pela América do Sul terminaria na Venezuela, onde Granado ficou. Guevara tomou um avião de carga para Miami, onde passou um mês quase sem dinheiro, antes de voar de volta a Buenos Aires. “Mas ele se divertiu o quanto possível e pôde conhecer os Estados Unidos, pelo menos uma pequena parte do país”, assinala seu pai, no epílogo do volume.
Em resumo, o Che que aparece no livro é um jovem “quase uma criança”, como ele se define ao completar 24 anos. Aventureiro, e não ainda um revolucionário. Mas a viagem de fato o transformou.
A evidência está no último capítulo escrito por ele, provavelmente já de volta à Argentina. Ali, já não fala como estudante descompromissado, mas antecipa, com grandiloqüência, a violência da guerrilha: “E sei disso porque vejo impresso na noite em que eu, o dissector eclético de doutrinas e psicanalista de dogmas, uivando como um homem possesso, tomarei de assalto as barricadas ou trincheiras, mancharei com sangue minha arma e, louco de fúria, degolarei quantos vencidos caiam em minhas mãos. (…) Vejo-me caindo imolado em nome da autêntica revolução que igualará todas as vontades. (…). Já sinto minhas narinas dilatadas, saboreando o odor acre da pólvora e do sangue, da minha morte inimiga”.


