APRESENTAÇÃO | AUTOR | LEIA UM TRECHO | IMPRENSA

ECOS DO AMANHÃ

CAPÍTULO 01

Talvez tenham sido os aborígines de alguma longínqua aldeia os primeiros a perceber o som, descendentes de pigmeus ou de certa equipe de cientistas atuando na Antártida. O fato é que, em uns dez dias, todo o planeta já havia de alguma maneira se dado conta daquele contínuo e metálico ruído.

Era como dezenas de bolinhas de gude rolando ao mesmo tempo em chapas onduladas de zinco de diversos tamanhos formando uma vibração instável e ininterrupta. O som ficava mais forte ou enfraquecia aleatoriamente, mas, desde que percebido, não parava mais.

Confundia-se com as máquinas, misturava-se ao mar e às chuvas, rios, cachoeiras. Não importava qual fosse a fonte sonora, lá estava ele, perceptível aos tímpanos, somado aos outros ruídos.

Por algum tempo ninguém lhe deu muita importância; sim, era estranho ouvi-lo mesmo em cabines à prova de som ou lugares totalmente isolados. Quem sabe por não termos mais tanto controle sobre o que escutamos ou por estarmos acostumados a incorporar novos ruídos ao nosso dia-a-dia, somente depois de não haver meios de abafá-lo ou diminuí-lo é que se começou a falar mais do assunto. Aos poucos, todos nós ficamos sabendo que cada um de nós, estivesse onde estivesse, podia ouvir aquele som.

A coisa foi ficando mais e mais intrigante à medida que fomos descobrindo outras peculiaridades: o tal ruído tinha o mesmo comportamento para toda a Terra, ou seja, sua instabilidade soava por igual no mundo todo. Os meios conhecidos de comunicação não registravam nenhuma interferência, nem era possível rastrear a fonte do barulho. Ele parecia habitar tudo que fosse material, não se podia evitá-lo sequer tapando os ouvidos, não importando com o que. É que nosso corpo, qualquer coisa viva ou inanimada, vibrava inteiramente sintonizada àquele som.

Autoridades científicas de todo o planeta reuniram-se cerca de um mês depois para avaliar a situação e tentar encontrar explicação para o fenômeno em busca de algum modo de eliminá-lo. O que se descobriu não foi nada animador: cada molécula, cada célula existente no planeta, funcionava como um defletor sonoro, vibrando em sincronia com o tal som.

Nem na mais bem abastecida biblioteca haveria palavras suficientes para descrever o caos originado pelo fenômeno. Para que se tenha uma vaga idéia, o stress coletivo ocupou todo o espaço possível; as guerras regionais, conflitos étnicos, divergências políticas, todo o infantil alarido humano que só alguns bilhões de egos exacerbados são capazes de produzir, deu lugar gradativamente ao desesperado grito de socorro!...

Ao fim da quinta semana, milhares de pessoas se acotovelavam às portas dos consultórios de otorrinolaringologistas, implorando que lhe fossem arrancados os tímpanos. Psiquiatras e psicólogos viam suas salas lotadas de pacientes desolados, tomados por incontrolável angústia, queixando-se de insônia, crises de raiva, depressão e um terror crescente, total incapacidade de concentração.

A entrada do verão e do inverno nos dois hemisférios marcou o início do terceiro mês de agonia. Já não se sabia mais se o ruído era o mesmo, se havia se intensificado ou mudado de timbre, alguns até juravam que ele nem existia mais.

Facções religiosas radicais, em seu óbvio caminho de imaginar Deus como carrasco universal, afirmavam tratar-se de inexorável punição; teorias das mais elaboradas às mais estapafúrdias se esbarravam em constatações e negativas bombásticas.

Então chegamos à outra descoberta incrível: parecia que o estranho som, aquele barulho tão terrivelmente perturbador, não afetava tanto aos animais ou ao reino vegetal assim. Ouvidos sensíveis como os dos cães, por exemplo, não demonstravam tanta atenção ao ruído, a não ser quando eram chamados por seus donos e tinham certa dificuldade em escutá-los.

Também o crescimento das plantas não mostrava sinais de qualquer interferência. Na verdade, das algas marinhas aos enormes troncos silvestres, dos menores arbustos às trepadeiras, não se constatava nenhuma anormalidade.

Tudo isto agora nos fazia crer que a fonte do som buscava algum jeito para se comunicar com mentes racionais, seres que pudessem compreender o significado de alguma mensagem ainda que enviada em linguagem desconhecida. O problema era quando se tentava registrar em gravação o estranho ruído: ao reproduzi-lo, ele se misturava de tal forma com a emissão original que não conseguimos avaliá-lo, embora houvesse uma diferença de tempo entre as oscilações gravadas e as originais.

Mais tarde, pôde-se perceber, comparando-se gravações feitas no início com o presente estado do ruído, que houve uma sensível alteração no timbre – ele, agora, se tornava mais denso e subia lentamente de freqüência, passando do grave ao agudo numa variação mínima, cerca de dez HERTZ por semana. Ao mesmo tempo, o corpo sonoro ganhava novos harmônicos, oscilações variadas às quais iam aos poucos se separando, abrindo o leque, por assim dizer.

Num esforço concentrado, os governos das principais nações da terra reuniram suas mentes mais brilhantes formando um grupo de oito integrantes e enviando-os a um laboratório escolhido de comum acordo.

Sua missão era óbvia: localizar, definir e destruir a fonte desta aterradora música, calar de uma vez a boca de tão demoníaca voz.