MORTALHA NÃO TEM BOLSO
Horace McCoy

Se estamos hoje falando de Horace McCoy (1897-1955) é porque num belo dia de 1935 ele publicou seu mais brilhante e violento romance: They shoot horses, don't they?, uma pergunta, um título e um dedo apontado para a sociedade do espetáculo em que se foi transformando a sociedade americana, para utilizarmos a exata expressão de Guy Debord, cunhada em 1967, mas perfeitamente aplicável tanto para a década de 30 nos Estados Unidos, em plena Depressão Americana, quanto para a Europa após 1968. E ainda para toda a sociedade do entretenimento globalista em que nos convertemos.

They shoot horses, don't they? tornou-se imediatamente um clássico cult, uma obra existencialista - ''a primeira norte-americana'', segundo sugestão do casal Sartre, perito no assunto - e um filme aclamadíssimo, dirigido por Sidney Pollock, protagonizado por Jane Fonda e Michael Sarrazin e intitulado, aqui no Brasil, A noite dos desesperados. O livro foi publicado pela primeira vez no Brasil em 1947, na tradução de Érico Verissimo e, pela segunda vez, em 2000, pela Sá Editora, em novo texto do jornalista e escritor Renato Pompeu.

Se quisermos representar o universo ficcional de Horace McCoy - a sociedade do entretenimento em sua face mais sórdida - podemos lançar mão dessa justíssima e desumana fábula de Sylvio Massa de Campos: ''Por engano, trocaram as facas. O mágico engolidor de facas, procurando os aplausos, enfiou-a com ímpeto na própria garganta. Espantado, os seus olhos piscavam de dor, medo e horror. Bem abaixo do peito, um forte jato de sangue começou a colorir o picadeiro. O público aplaudia a mágica delirantemente''.

Se em A noite dos desesperados o centro dramático eram as sangüíneas competições de dança em que os casais inscritos deveriam bailar até a exaustão em troca de pão, trocadinhos e alguns poucos 15 minutos de fama, neste outro romance de McCoy o caso é outro, porém o mesmo.

A história de Mortalha não tem bolso, tradução de No pockets in a shroud - provavelmente um equivalente inglês para a máxima ''deste mundo nada se leva'' -, tem como centro dramático o jornalismo e a tênue marca divisória entre imprensa livre e imprensa sensacionalista. Passa-se numa cidadezinha americana típica e apresenta o jovem herói Michael Dolan, um repórter que não tem medo de nada: não tem medo do poder, não tem medo do dinheiro, não tem medo de seus patrões e adora dizer a verdade. Um dia, é claro, foi despedido.

Em seguida, cria, com os fundos que não tem, a sua própria revista semanal independente - a Cosmopolite - e desanda a denunciar todo o tipo de autoritarismo, desmando e abuso de poder que é capaz de apurar nos limites da cidadezinha onde mora: os crimes de colarinho branco, a prática ilegal da medicina e as associações fascistas clandestinas comandadas pelos chefes de família da região, a defender a moral, a tradição e os bons costumes, somente encontráveis no ''macho adulto branco sempre no comando'' - a única ''raça'' com direito garantido de ir e vir.

Dolan - sedutor, famoso entre as mulheres, infantil, ingênuo, idealista e arrebatado - consegue algum dinheiro. É capaz de manter a sua Cosmopolite de pé durante duas ou três semanas e deixar explícito o chamado ''rabo preso'' dos demais jornais. Consegue ainda destacar-se entre seus pares e denunciar metade da cidade. No fim, acaba levando uma boa surra e um tiro na cabeça.

Mortalha não tem bolso pode ser considerado um pedaço da história do próprio Horace McCoy. À semelhança de algumas características de seu destemido personagem Mike Dolan, McCoy também serviu à sua pátria por um ano e meio, durante a Primeira Guerra, e foi, além de escritor e roteirista de cinema, repórter, jornalista, fundador do Teatro de Bolso de Dallas. Foi ainda caixeiro-viajante, guarda-costas de político e leão-de-chácara. Escreveu Mortalha não tem bolso em 1937, e não mediu palavras. O texto - jornalístico, informal, desbocado e entupido de diálogos - revela-se uma espécie de placa de Atenção, perigo!, a apontar o dedo para Hitler, para Mussolini e para todo o lixo ideológico em que se meteu a Europa.

Horace McCoy, na pele de Mike Dolan, seu alter ego e super-herói da história, tem a coragem e o desprendimento suficientes para escrever com força e convicção acerca dos mais graves problemas norte-americanos. Vá lá. Prova-o o lema da revista de Dolan, a bombástica Cosmopolite, que assim clama: ''A Verdade, toda a Verdade e nada mais do que a Verdade.''

Há em tudo isso, no entanto, um senão óbvio e perigoso. O problema de se lutar por uma verdade com maiúsculas é acreditar que se pode encontrá-la e dela tomar posse. Todo o autoritarismo ao qual nos opúnhamos se transforma então no autoritarismo do qual passamos a nos valer - e em nome dela.

 

Solidão de repórter

Xico Sá, da Agência Folha

Todo repórter investigativo que se leva a sério demais é um chato, independentemente de suas supostas boas intenções de salvar o mundo. Nove foram as viagens ao redor do próprio umbigo, gasolina do carreirismo. Temos essa impressão com o rapaz Mike Dolan, às voltas com editores picaretas e jornais idem na simbólica Colton da América pós-Depressão. Mas a vida solitária - pedagogia da inutilidade- e o gosto por uma morena cor de azeitona, de lábios imorais, cuida de torná-lo um cara bacana.

A criatura de Mortalha Não Tem Bolso, livro de 1937 do americano Horace McCoy (1897-1955), tem o ímpeto de um foca, simpática coisa marinha que denomina os iniciantes dos jornais. Guardar consigo o entusiasmo de um calouro, mesmo depois de carimbar a carteira com a eterna tinta do desprezo patronal, é o elogio permanente para o dito velho repórter. Dolan era tentado por esse canto das focas.
McCoy tira sangue de uma utopia banal e religiosa, a do jornalista que pretende limpar uma cidade, eliminar a corrupção na América enlameada até o pescoço do último moralista. Após se decepcionar com os editores de um jornalão que engaveta suas reportagens fantásticas, Dolan se vale de amigos caridosos, pega emprestado um punhado de dólares e monta sua revista. Uma espécie de "New Yorker" do denuncismo, como insinua. A obsessão é correr atrás das fraudes.


Se o leitor sabe que apenas a devoção por algumas mulheres vale uma vida, vai logo entender que o radicalismo de Dolan ganhou letras garrafais no seu cérebro quando ouviu da morena-azeitona um conselho: "Você tem ódios. Fique com eles bem vivos. Serão muito úteis". E, como diria de novo o velho Balzac, a imprensa, como a mulher, é admirável e sublime quando conta uma mentira.

SERVIÇO
Mortalha Não Tem Bolso (No Pockets in a Shroud), de Horace McCoy
Tradutor: Renato Pompeu
Editora Sá
224 páginas
R$ 32,90

 

McCoy narra desencanto com a América

Em Mortalha Não Tem Bolso, o autor de A Noite dos Desesperados enfoca o momento em que a Grande Depressão revela os limites dos ideais fundadores dos EUA

São Paulo - São os diálogos que movem Mortalha Não Tem Bolso, do escritor e jornalista Horace McCoy (1897-1955), autor também de Noite dos Desesperados. Num deles, o protagonista da obra, Mike Dolan, logo depois de ter sua revista "confiscada" das bancas de jornais, por trazer uma denúncia contra uma importante figura da pequena cidade, reclama: "Ele não pode fazer isso! (...) Estamos nos Estados Unidos da América!"

Não é o começo da decepção de Dolan com a realidade do país naqueles anos 30, quando os americanos começavam a esquecer a depressão econômica e se preparavam para entrar firmes na Segunda Guerra Mundial. Mas também não será o fim. Horace McCoy, neste romance escrito em 1937, defende que, independentemente do lado que os Estados Unidos haviam escolhido no conflito que se anunciava, o país estava cheio de Hitlers e Mussolinis.

No início do livro, Mike Dolan é um editor de esportes. Não consegue publicar uma denúncia contra um resultado arranjado, é demitido do jornal em que trabalha e resolve lançar uma revista própria, a Cosmopolite, com a história. É apenas o primeiro mergulho na corrupção da pequena cidade de Colton. Em seguida, seu alvo é um médico que faz abortos e que provocou a morte de algumas pacientes, mas que tem um irmão bastante poderoso.

É nesse momento que os exemplares do seu periódico são "apreendidos". Mas a violência mais radical, mais fascista em sentido estrito, que encontra está relacionada a um grupo denominado Os Cruzados, que lutam pelos "verdadeiros americanos" (ou seja, contra os negros) e por sua duvidosa moral.

Um dos empregos de McCoy foi o de editor de esportes e repórter. Também foi fundador de um teatro de bolso - como Mike Dolan, o jornalista combativo e corajoso de Mortalha Não Tem Bolso. Outra profissão que "abraçou" foi a de leão-de-chácara em concursos de dança, como os descritos em A Noite dos Desesperados.

Assim, é tentador ver nessas histórias a sua própria história. McCoy, dessa forma, apresenta-se como um escritor tentando conversar com o seu país, tentando apontar seus mais graves defeitos: o show dos horrores nas maratonas de dança ("finalmente" superados pelos shows de realidade das televisões de todo o mundo na virada do ano 2000) e a violência do poder contra os princípios de igualdade, liberdade e fraternidade.

O slogan da revista de Dolan é "A Verdade, toda a Verdade e nada mais do que a Verdade". É bastante pretensioso, especialmente pelo uso das letras maiúsculas, mas há um personagem no livro que talvez seja o verdadeiro alter ego de McCoy neste momento: um amigo ligado ao movimento comunista, que procura mostrar o alcance limitado e ao mesmo tempo perigoso do trabalho do jornalista.

Por mais que provoque e que disseque a realidade, o jornalismo não faz mais do que arranhar a verdade que o próprio Dolan parece ter entendido: de que, afinal, estamos nos Estados Unidos da América - e que o país está cheio de Hitlers e Mussolinis.

Sem resposta - Nesse sentido, o verdadeiro diálogo da obra não se realiza: o diálogo do autor com seu país, os Estados Unidos que McCoy parece querer corrigir com medidas paliativas - denunciando os poderosos (que participam de um assassínio durante uma reunião dos Cruzados e que são apontados a partir das placas de seus carros), criando um teatro de bolso, unindo-se a quem começava a ser escanteado na política e que, nos anos que se seguiriam à Segunda Guerra, seria definitivamente eliminado pelo machartismo.


McCoy mostra seu desespero com o que vive e com o que imagina que os Estados Unidos viverão. Não há saída à vista e, talvez por isso, a sensação que a leitura de Mortalha Não Tem Bolso deixa é a de incompletude: se os diálogos movem o livro, quase todas as suas falas não têm respostas civilizadas justamente de quem deveria tê-las ouvido mais atentamente.

Haroldo Ceravolo Sereza

 

Atirem no jornalista

São Paulo, 3 de Maio de 2002 - O destino do jornalista em busca da notícia não deve perturbar o leitor, assim como um espectador de corridas não deve lamentar os acidentes de um piloto na pista. Jornalistas e pilotos calculam o risco e são comumente pagos para enfrentar obstáculos, numa visão pragmática de seus ofícios. O jornalista, portanto, não deve interessar mais do que a notícia. Ou não deveria, até o surgimento de "Mortalha Não Tem Bolso" (No Pockets in a Shroud), de Horace McCoy.

Este é um livro de 1937 que chega ao Brasil como pedra solitária em pradaria. O livro fala de um jornalista impedido de dizer a verdade, isto na pátria livre Estados Unidos, isto às vésperas de Benito Mussolini e Adolf Hitler tumultuarem a cena mundial com a imposição delirante de sua política. O jornalista é Mike Dolan e sua cidade, Colton, um microcosmo da América conservadora.

Comentarista de beisebol, Dolan constata que alguns jogadores a que presta reverência estão envolvidos em corrupção. O profissional os desmascara e se vê na contingência de abandonar o melhor emprego da cidade por conta da denúncia. Funda então uma revista, nos moldes da "New Yorker", que terá a missão de dizer a verdade, toda ela, ao público leitor, e isto parecerá incômodo à sociedade e seus comandantes.

Dolan tenta conseguir anúncios para a publicação, cujos assuntos variam da negligência de um médico que pratica abortos ao desmascaramento dos Cruzados, um braço da racista Ku Klux Klan, mas os anunciantes não chegam. Apaixonado pelo palco (McCoy, nascido no Tennessee, fundou o Teatro de Bolso de Dallas) e pelas mulheres, Mike Dolan consegue então bom dinheiro de um político cuja filha o faz enfrentar uma humilhação, e assim toca o projeto jornalístico, ainda que de forma acidentada.

É, pelo tom, rapidez e perfil, uma história noir, em que o detetive mordaz se vê substituído pelo jornalista investigativo. Como em toda história deste gênero, há a dureza, no sentido financeiro e moral, do protagonista, que delicia o leitor ao responder à pergunta "Você já esteve nos Mares do Sul?", feita por uma madame, com a frase: "Só sentado na última fileira do cinema."

Mas Dolan é um pouco diferente de todos os outros porque sua aventura não dá origem a uma série, como o Philip Marlowe de Raymond Chandler, e sua corrida contra o poder nada tem de eventual - ele não recebe pagamento por ela e dificilmente sairá vencedor da empreitada. Além disso, Dolan não é Marlowe, porque lê Ezra Pound, percebe os versos do poeta americano no bater das ondas da praia onde faz amor e sabe, contra milhões de seus compatriotas, que o fascismo constitui ameaça próxima.O livro é o segundo de Horace McCoy, um dos maiores prosadores americanos, morto em 1955, aos 58 anos, depois de ter atuado como editor de esportes, caixeiro viajante, jornaleiro, motorista de táxi, guarda-costas e soldado na França durante a Primeira Guerra. O primeiro de seus romances, "A Noite dos Desesperados", de 1935, nascido de sua experiência como leão-de-chácara em salão de baile, quis capturar a histeria em torno da Depressão Americana ao focalizar um concurso de dança; além de uma versão para cinema, em 1969, dirigida por Sydney Pollack (Charles Chaplin comprou os direitos do livro, mas não filmou), a obra ganhou dos franceses Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir a alcunha de "romance existencialista" pioneiro da América.

"Mortalha Não Tem Bolso" segue esse intuito de, por meio da ficção, focalizar um momento político e social que - flagelo histórico - se repete hoje, em pesadelo. A corrupção é um cenário imbatível aos anos, o racismo, recorrente na América como na Europa mediterrânea e nos Bálcãs, e os médicos, negligentes com uma freqüência ainda indesejável. Outra atualidade involuntária do romance é a impotência jornalística em enfrentar as escaramuças do poder, por algum tipo recorrente de acomodação profissional, por ganância corporativa ou necessidade de perpetuação oligárquica, que o jornalista raras vezes contesta.

Houvesse mais Dolans e o mundo seria outro? Há uma discussão no livro sobre tal possibilidade, travada entre o protagonista e seus auxiliares, Edward Bishop e Myra, acusados de comunistas por uma delegacia local de Distúrbios Sociais. Bishop diz a Dolan que, para mudar o estado de coisas, seria necessário, como pregava o teórico Karl Marx, trabalhar com vagar e serenidade, destruindo metodicamente as bases sociais do império. Mas Dolan, motivado pela adrenalina da notícia, despreza as lições do comunismo e as qualifica como indiferença programática diante dos males da "gente ruim".

É um livro, então, de época, quando internamente os americanos já começavam a combater com policiamento os cidadãos detentores de um ideário social que se aproximasse do soviético, numa antecipação ao horror da guerra fria. Aqui, tem-se a oportunidade de assistir às sementes germinadas do macarthismo, que McCoy antecipa com muita clareza, da mesma maneira que não despreza a aceitação calada do fascismo nos corações e mentes dos homens de seu país.

Em "Mortalha Não Tem Bolso", está desenhada então essa rara espécie de jornalista, o "tipo Dolan", digno daquelas classificações profissionais do escritor Honoré de Balzac em "Ilusões Perdidas", obcecado pela verdade como o Policarpo Quaresma, de Lima Barreto, com a língua nacional. Exposto a todo o risco de enfrentar o baronato com palavras, ele segue em suas investigações com empenho fatalista: sabe que vale a pena morrer por uma causa.

E é neste ponto que o livro se torna estranho a quem o lê, não tanto, talvez, como observa o tradutor Renato Pompeu, por sua linguagem coloquial, que envelheceu e desafia cada nova tradução com novos coloquialismos. É um livro estranho porque seu personagem dita milhas de um profissional a que nos habituamos, impregnado de vaidades, ocupado em passar a perna no concorrente, dando uma notícia em primeiro lugar mais pelo prazer de difundir uma novidade do que de formar um público, este sempre diminuído em sua capacidade de compreensão. O jornalista de Horace McCoy, defasado por seu machismo e repugnância aos homossexuais, é também velho porque seus princípios valem mais do que uma casa ou uma viagem de graça a Paris, eventuais recompensas no exercício da profissão. Lido hoje, é personagem que beira a caricatura.

A Sá Editora, que em 2000 editou "A Noite dos Desesperados", guarda para tradução próxima "I Should Stayed Home", livro de 1938 de Horace McCoy, este um escritor que, mesmo preso ao estilo literário cinematográfico (escrevia roteiros para Hollywood), repleto dos ganchos de rapidez dos romances de suspense, dá o leitor a respiração musical dos clássicos, em seqüências dignas de figurar entre as melhores da literatura (como aquela final) e descritivas de um estado de ânimo interior e psicológico, como esta reproduzida ao lado. Condizem com Horace McCoy o melhor Faulkner e o mais inspirado Hammett produzidos pela escrita americana.