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Por Editora Sá | 17 de Março de 2008 | Em Notícias |

Folha de S. Paulo, domingo, 16 de março de 2008

Chegada do ex-craque francês, que participa hoje de uma partida beneficente em São Paulo, marca lançamento de sua biografia

DA REPORTAGEM LOCAL

“Sincédrie.” Foi assim, numa convocação da seleção sub-15, que a Federação Francesa de Futebol chamou pela primeira vez o rapaz marselhês do pequeno time do Septêmes.

Bem diferente do nome que seria o grande ícone do futebol entre dois séculos, protagonista de uma Copa, figurante em outra e anti-herói na terceira. Uma narrativa que o Brasil conhece a partir de hoje, com direito a uma visita do ex-craque.

A chegada de Zinedine Zidane a São Paulo prevê hoje um jogo beneficente no Paineiras (cujos ingressos foram trocados até ontem por alimentos) e o lançamento da versão nacional de sua biografia -carreira mágica de fim inesperado.

A cabeçada no peito do italiano Marco Materazzi, que o expulsou na final da Copa-2006, rendeu um inexplicável anticlímax ao seu recital derradeiro.

O livro Zinedine Zidane (Sá Editora, 256 págs., R$ 45), dos jornalistas Jean Philippe e Patrick Fort, incomoda pelo tom oficial e apaixonado, mas faz compreender aquele que sepultou o Brasil duas vezes.

O retrato de um garoto tímido, caçula de família argelina, é coerente com o jogador avesso a frases bombásticas, escândalos ou comemorações efusivas.

Nem mesmo quando se esperava aspereza do meia, na final da Copa de 2006, o mundo ouviu algo de fúria. Só três dias depois e de cabeça fria, Zidane se manifestou (veladamente) sobre a ofensa de Materazzi e a cabeçada. Desculpou-se.

O trunfo do livro é o grau de intimidade com o jogador raras vezes imaginado. Do momento em que é vendido pelo Cannes ao Bordeaux e extrai a declaração “Fui vendido como um animal” à comemoração contida, em 1998, ao lado do filho Enzo.

Do temor no início da passagem pelo Real Madrid à sensação de ser um pivô de diferenças políticas entre franceses, argelinos e outras etnias árabes, num amistoso realmente tumultuado entre França e Argélia, em Paris, em 2001.

E diverte, quando lembra que os franceses celebravam cada vitória em 1998 com o hino gay “I Will Survive” (”Eu sobreviverei”), de Gloria Gaynor.

Sobre Materazzi, o livro não ultrapassa o relato do italiano, que publicou com dois co-autores sua versão dos fatos (a frase da final seria “Eu prefiro a puta da tua irmã”). Mas faz jus à classe do primeiro mito do futebol deste milênio, que fez do domínio majestoso um lance mais importante que o chute.
(MÁRVIO DOS ANJOS)

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