Enquanto massageava meu pescoço entorpecido contemplando
no alto os afrescos de Gozzoli em Montefalco, senti-me tocada
pela habilidade do artista em mostrar que, embora São
Francisco de Assis tivesse levado uma vida extraordinária,
afinal de contas aquela fora uma vida como outra qualquer,
vivida num mundo entre homens e mulheres, construções,
animais e plantas. Tal visão condizia com seu lema,
pois, se São Francisco era um grande místico,
também era inteiramente deste mundo. Não foi
tanto um amante da natureza (com certeza não era ambientalista,
nem vegetariano), antes um homem que não fazia distinção
entre si mesmo e o mundo natural. Preferia viver como um animal,
levantando-se com o sol, perambulando durante o dia, procurando
comida, compartilhando-a com sua própria espécie,
dormindo no chão, com uma pedra no lugar do travesseiro.
A vida de São Francisco não requer nem defesa
nem interpretação. Percebi que sua história
pode ser mais bem apresentada numa série de cenas,
começando pelos sombrios dias finais tão cheios
de sofrimento físico e da adulação da
multidão e concluindo com a luminosa história
de sua conversão, quando ainda era um jovem com todas
as possibilidades abertas à sua frente. Com esse método,
espero oferecer uma mostra um tanto pessoal, alternativa,
das cenas da vida. Pelo que pude aprender a seu respeito,
São Francisco via este mundo como uma espécie
de exame de capacitação para o próximo.
Como todo estudante inteligente e aplicado, absorveu-se totalmente
na preparação das provas. Começou concentrando
a enorme energia de sua vontade sobre sua própria salvação,
mas, no momento de morrer, pretendia liderar uma multidão
para o paraíso e tomar de assalto o outro mundo. Sua
grande obra - uma obra de arte, tanto quanto as numerosas
pinturas e esculturas que o celebram - foi sua própria
vida. Como a maior parte dos turistas, quando procurava as
ilustrações pictóricas da vida de São
Francisco, eu queria apenas ver a arte; a história
era acidental.
Mas essa história penosa e triunfante assaltava-me,
parecendo ultrapassar as paredes e os tetos. Em Assis, Montefalco,
Florença, Roma, Arezzo, um enfurecido mendigo descalço
bradava-me a plenos pulmões: "Isto foi o que fiz
de minha vida! Agora vá e mude a sua!"
Para o professor: indicado para Faculdades
de Filosofia, Psicologia, História. Para estudantes
de Teosofia, Catolicismo.
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