UM JOVEM E RICO ANDRILHO
Quando paramos na rua e damos algo a um
pedinte, por que o fazemos sempre o mais rápida e discretamente
possível?
Max Frish, Questionnaire
Pela manhã, quando deixam Foligno, seu cavalo sabe
que essa é a última etapa da viagem e caminha
a passo firme, que não requer nem guia nem pressa.
Francisco também vai sem pressa, pois sua casa não
tem nenhum dos encantos da aventura que agora finda. Todos
vão querer escutar as histórias do que ele viu;
seu pai vai querer ouvir a descrição de Roma,
a cidade das maravilhas, suas torres e suas pontes, o palácio
de Latrão e todas as capelas e relíquias sagradas
que ele visitou. Não mencionará, contudo, o
acontecimento que inflamou sua imaginação, porque
todos dirão que foi uma vergonhosa e patética
estupidez do jovem bem-nascido e inútil, que não
tem a sensatez de apreciar sua própria posição.
Suponhamos, exclamará seu pai, suponhamos que algum
vizinho de Assis o reconhecesse. Como faria agora para exibir-se
na cidade?
Já faz algum tempo que algo se apodera de Francisco.
Não sabe ao certo o que é nem quando começou,
mas pode sentir a coisa vindo até ele, crescendo a
cada segundo. Seus sonhos são triunfais; vozes aconselham-no,
mostram-lhe cenários de glória com uma promessa:
tudo isto será seu. Mas, quando desperta, não
há triunfo algum, mesmo que seja livre para se envolver
em qualquer busca ou distração que o dinheiro
de seu pai possa comprar. Pode organizar um banquete, um coro
ou, em algum feriado em que seu pai não precise dele
na loja, pode caminhar no campo e explorar os bosques e riachos
vizinhos, as diversas cavernas onde, menino, ele procurava
por tesouros enterrados. Nada o impede, ninguém o contradiz.
Se disser que deseja ser um cavaleiro, será encorajado
em cada esquina e receberá uma armadura; arranjos serão
feitos para que se junte a um grupo de nobres, ainda que seus
pais saibam, como ele, que não tem nem saúde
nem habilidade suficiente com as armas para se engajar em
tal aventura. Quando decidiu visitar os lugares sagrados de
Roma, ninguém objetou coisa alguma. Sua mãe
providenciou uma bolsa cheia de pão e guloseimas, o
pai ofereceu-lhe o melhor de seus cavalos e ambos asseguraram-se
de que suas roupas fossem as melhores e de que ele levasse
prata o suficiente para fazer as oferendas adequadas nas capelas
por onde passasse.
Seu cavalo balança a cabeça, como se quisesse
lembrá-lo de que ele tem, ao menos, algumas obrigações
menores de cavaleiro, e vem até ele num trote. É
um dia primaveril, de uma perfeição estonteante;
o ar está fresco e agradável, o céu é
tão azul quanto o manto da Santa Virgem, e, nos dois
lados da estrada, os campos estendem-se agradavelmente, oliveiras
em um dos lados e cereais do outro, ladeados por levas de
ciprestes e pinheiros. Ele pode ver, também, contingentes
de tentilhões gorjeando nas folhas enfumaçadas
das oliveiras e andorinhas ondulando nas alturas nas mais
variadas formações, como folhas caídas
em um pequeno riacho. Passa por dois camponeses que limpam
a lama da estrada e por outro que leva um bode relutante com
um pedaço de corda velha presa ao pescoço. Todos
olham quando passa, um jovem rico, despreocupado, e dão
respostas rápidas e secas a suas saudações
amigáveis, pois têm trabalho a fazer e não
podem passear pelo campo montados num bom cavalo e vestidos
como um almofadinha. O bode dá um berro estrangulado,
debatendo-se com a corda, e seu dono o xinga e o ameaça,
jurando que ele não viverá nem mais um dia.
Francisco afasta o olhar; sempre o incomodam as demonstrações
descabidas de ferocidade. Já viu muitas, aliás,
nos últimos dias, especialmente na cidade, onde se
amontoam os homens e as bestas e os ânimos se acirram
com os comentários mais inocentes. Viu dois homens
brigando nas escadarias da Basílica de San Pietro e
mais tarde, quando deixou a casa sagrada, notou tamanha quantidade
de sangue - ainda que não houvesse sinal algum dos
combatentes - que teve certeza de que um dos homens matara
o outro. E foi ali, olhando imóvel e nervosamente para
os lados, que uma voz saída da escuridão do
vestíbulo o chamou e, assim, teve início a aventura
peculiar e maravilhosa.
"Você ofereceu tudo aos sacerdotes ladrões?",
a voz inquiriu. "Será que não tem sequer
uma moeda para oferecer aos que precisam verdadeiramente dela?"
Francisco afasta-se do sangue que encharca as pedras da escadaria
e aproxima-se do homem, se é que é um homem
que fala, pois tudo o que consegue ver é um pé
descalço, tão inchado e machucado que mais parece
um legume apodrecido que algo propriamente humano. "Ainda
não dei tudo", diz, penetrando sob o arco. Não
consegue ver nada, ofuscado pela luz do sol, e agora, embora
as sombras o confundam, escuta a risada desgraciosa de vários
homens. Um deles diz: "Eis o último homem honesto
do mundo", e outro responde: "Isso só prova
o que venho dizendo, o dia do Juízo Final está
próximo, e existe um novo Cristo entre nós para
prová-lo".
"E o Papa é o Anticristo", retorque o primeiro.
Os olhos de Francisco habituam-se à escuridão
e ele pode vê-los. São três homens; dois
já idosos, e o terceiro, aquele que anunciou a iminência
do Juízo Final, é um jovem talvez da sua idade,
cabelos loiros bem cheios, quase sem barba e uma expressão
franca e ingênua no rosto. Observa Francisco de cima
a baixo com um olhar ousado e explorador. "Vejam só,
essa é uma capa bastante fina, que só um nobre
pode dar-se ao luxo de possuir", observa.
"Não sou nobre", responde Francisco. "Mas
meu pai comercia com tecidos."
O jovem levanta-se com dificuldade, apoiando as mãos
na parede atrás de si. Quase de pé, inclina-se
para a frente, para melhor sustentar a perna boa. A outra
é curta e torta, os músculos da panturrilha
atrofiados, a pele apertada contra o osso. Só agüenta
seu peso o tempo suficiente para dar um passo. Cruza o cubículo
na direção de Francisco com um trotear desastrado
e defeituoso, depois joga-se mais uma vez contra a parede
oposta. "Eu não pareceria um príncipe se
usasse uma capa como essa?", diz, rindo da expressão
de Francisco. Faltam-lhe alguns dentes no canto inferior direito
da boca, e, quando sorri, seu lábio deixa o vão
à mostra.
"Pelo amor de Deus", diz um dos velhos, "dê-nos
uma moeda, se não vai dar-nos a capa."
Francisco vira-se, apertando bem os olhos para ver melhor
o interlocutor, oculto ao lado do outro amigo, que esfrega
o rosto com os punhos e faz eco: "Sim, dê-nos uma
moeda, pelo amor de Deus".
"Pelo amor de Deus", diz Francisco.
Na igreja, ele vê a multidão reunida ao redor
da tumba do apóstolo Pedro. Ao chegar, cada peregrino
coloca uma moeda na saliência de pedra ao lado da tumba
e recita uma pequena oração. Francisco choca-se
com a mesquinhez das contribuições. Essa gente
veste-se com as melhores sedas, lãs e peles, tem os
dedos e os pescoços cobertos por jóias, até
mesmo o fecho de seus cinturões é feito do ouro
mais puro, mas, na hora da oferenda em nome do apóstolo
que foi escolhido por Cristo para proteger sua igreja, que
foi sua companhia mais próxima, a testemunha de sua
crucificação e de seu triunfo sobre a morte,
que foi, ele próprio, crucificado no mesmíssimo
lugar e deu a vida pela causa de sua fé, nesta hora,
homens e mulheres poderosos enfiam as mãos em suas
bolsas e retiram apenas uma moeda solitária. Por que
tanta mesquinharia? Pensam, talvez, que o filho de Deus era
um mendigo, que agradeceria tão escassa caridade? Seu
sublime sacrifício não requer melhor paga? Quando
chega a vez de Francisco, ele abre a bolsa, retira um punhado
de moedas e espalhas-as com gana na pedra, de onde rolam e
giram e escorregam pela balaustrada, indo cair com espalhafato
sobre a tumba. Os outros peregrinos viram-se para olhá-lo
e ele devolve os olhares com orgulho, mas nada revela de seus
pensamentos acusadores. Depois, caminha decidido através
da multidão.
Do lado de fora, encontra os degraus ensangüentados
e, logo depois, esses mendigos o chamam, implorando por qualquer
coisa que ele ainda tenha, "pelo amor de Deus".
Francisco encara os olhos ansiosos do jovem, que parece não
conseguir imaginar glória maior do que possuir aquela
capa. "Você trocaria suas roupas pelas minhas?"
Em resposta, o jovem dá um assobio de satisfação.
O velho gargalha com ele; esta, sem dúvida, é
uma negociação estranha. "Permitem que
eu me sente a seu lado?", continua Francisco, ao mesmo
tempo em que retira a capa, a roupa de baixo, o cinto de couro.
O jovem começa a retirar seus trapos, o que não
lhe custa tempo algum, pois está usando apenas uma
túnica curta, feita de saco de aniagem, e um par de
calções fedorentos, ornado de furos por toda
parte. "Terei de tomar minhas roupas de volta quando
for embora", Francisco explica enquanto examina o conteúdo
de sua bolsa, "mas deixarei minha capa e tudo o que tenho
na bolsa, exceto duas dessas moedas; precisarei delas no caminho."
"Giuseppe está certo", observa um dos velhos.
"Isso prova que o julgamento de Deus está próximo."
Francisco ri. Está quase nu, encurvado para arrancar
as perneiras. Giuseppe já vestira a camisa dele. "Dividirão
a comida comigo?", acrescenta. A pergunta fá-los
rir às gargalhadas. "Ah, sim", concordaram.
Giuseppe apóia-se na parede e desce até os degraus
da igreja, agarrado a sua nova capa, carregando-a nos braços
como a uma criança. "Fazemos questão de
oferecer-lhe tudo o que é nosso", anuncia, com
a graça e a cortesia casual de um lorde que oferece
hospitalidade ao viajante enlameado que bate à sua
porta após dias e dias de caminhada.
Francisco ficou com eles o dia inteiro, e todos os que o
viram pensaram ser mais um mendigo. Experimentou as sensações
mais emocionantes e exóticas, logo ele, que sempre
fora admirado e invejado em sua cidade. Mesmo quando foi feito
prisioneiro e jogado em uma cela imunda em Perugia, trataram-no
com respeito e guardaram-no junto aos nobres, pois os soldados
de Perugia sabiam que seu pai era rico e que pagaria um bom
resgate por sua soltura. Agora, era objeto de escárnio,
alvo de piadas cruéis. A multidão que passava
por ali sempre ria do grupo reunido no vestíbulo, chamando-os
de ladrões e bandidos e lastimando aquela presença
que conspurcava o ar puro da Santa Capela. "Pelo amor
de Deus", Francisco implora com a mão estendida,
e vê apenas o desprezo estampado nos rostos de todos,
mesmo daqueles que lhe concedem a honra de uma moeda atirada
ao colo. Tudo era um mistério, impenetrável
e atormentador. Trocando as roupas e fazendo daqueles homens
vis seus companheiros, era como se alterasse seu próprio
ser. Não devia, sabia disso, declinar seu nome verdadeiro,
pois seria uma vergonha para seu pai, um homem orgulhoso,
que andava de cabeça erguida e acreditava que o filho
era mais um dos excelentes produtos de sua indústria
e engenho nos negócios.
Que sensação era aquela, deliciosa e inesperada,
diante da dama de olhar arrogante, embora cheio de compaixão?
Quando Francisco lhe estendeu a mão, ela afastou-se,
puxando a saia rodada, temerosa de que ele a tocasse. Teria
agradecido aos céus por nenhum de seus filhos se encontrar
em situação tão desgraçada? E
o que diria se soubesse que esse mendigo inoportuno era um
blefe, que não merecia nem sua caridade nem sua piedade,
pois tinha um cavalo, uma bolsa, roupas finas e logo retornaria
para a confortável casa de seu pai, onde um servo viria
recebê-lo na porta?
Quando a noite caiu, mais dois homens juntaram-se ao grupo
e todos sentaram-se na rua para dividir a comida que conseguiram
durante o dia. Era pobre, pão preto e alguns grãos,
que transformaram em mingau, pois um deles tinha uma panela
de ferro e outro arranjara alguns galhos para fazer o fogo.
Francisco ouvia a conversa cheia de vida, pontuada de grosserias
e escárnio diante da vaidade do mundo. Embora soubessem
que era rico, incluíam-no na conversa, como se ele,
como os outros, não soubesse quando encontraria o que
comer novamente. Depois, trocaram as roupas e Francisco riu
junto com eles do milagre que foi sua transformação.
Pressentia uma tristeza dolorida ao acomodar o linho sobre
os ombros: era uma fantasia, que só aos tolos enganava,
pois qualquer homem sábio logo perceberia que aquela
não era a vestimenta adequada a ele, devia pertencer
a outro homem, algum jovem elegante e cheio de estilo, e Francisco,
vestido com suas próprias roupas, não passava
de um impostor. Dobrou a capa e depositou-a no colo de Giuseppe,
aceitando seus agradecimentos entusiasmados e as despedidas
exultantes dos demais, que lhe prometeram hospitalidade sempre
que voltasse.
Então, agradecendo e acenando todas as vezes que gritavam
seu nome, afastou-se sozinho, caminhando para dentro das ruas
escuras.
(...)
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