BLOG DA SÁ
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Sérgio Sá e Dorina Nowill no lançamento de livros de Sérgio em São Paulo
Quando minha irmã e editora Eliana Sá sugeriu batizarmos meu primeiro livro de Fábrica De Sons, achei muito pretensioso, embora eu o tenha escrito para informar ao leitor dos recursos e procedimentos hoje existentes na tecnologia, empregáveis na criação e produção musicais. Mas, refletindo melhor, concluí que o título servia muito mais ao autor do que à obra.Cego desde que nasci, fui estimulado por minha família a mergulhar de cabeça e explorar o mundo através dos outros sentidos, abordagem feita em meu segundo livro, Feche Os Olhos Para Ver Melhor.Tocar, cheirar, degustar mais intensamente, ouvir mais atentamente, sinto que meu ouvido musical se desenvolveu quase por conta própria. Instrumentos musicais (Tambores, xilofones, gaitas de boca), sempre estiveram entre meus brinquedos favoritos, mas o piano tornou-se logo uma fixação, paixão que fez com que meus pais procurassem alguém pra me ensinar a tocá-lo quando eu tinha apenas 7 anos, abrindo caminho para minha carreira de tecladista e arranjador.Hoje posso dizer sem medo: Minha visão de mundo é pelo menos 50% baseada no que ouço.Os sons são a matéria prima da minha fábrica, me abastecem, me enriquecem à cada momento, considerando que não podemos fechar nossos ouvidos naturalmente, como podemos fechar nossos olhos. Assim, o vilão protagonista do meu terceiro livro, Ecos Do Amanhã, é um torturante ruído, soando cada vez mais forte por todo o planeta.Costumo comparar o trabalho de um artista ao de uma abelha, quando transforma o que suga das flores em mel. O pólen é absorvido e processado dentro dela, assim como o artista colhe e transforma eventos em arte. Minha música nasce inspirada no que vivo; na feira, na estrada, no silêncio de algum cantinho do interior. Eu Me Rendo, sucesso na voz de Fábio Junior, foi criada inteiramente dentro de um velho Electra 2 da Varig, vindo pela ponte aérea para São Paulo.Mais de 200 das 315 composições minhas já gravadas não me esperaram sentar ao piano, brotaram da exposição direta a esse nosso universo sonoro, eternamente em movimento. Assim foi com Amigo Desconhecido, sucesso que gravei no meu primeiro LP, Voa Vida. Olho Do Furacão, gravada por Simone, nasceu dentro da sala de cinema, durante a exibição do desenho Trom.Outros fabricantes, parceiros como Isolda, Antônio Marcos, Fábio Junior, Carlos Colla, também me deram muitas alegrias, os sucessos: Como É Possível, gravada por Roberto Carlos, Sonhos De Um Palhaço, na voz do próprio Toninho, O Que É Que Há interpretada pelo Fábio e Pensando Em Minha Amada, com Xitãozinho e Chororó, só para citar alguns.Minha fábrica de sons não se especializou em nenhum estilo específico, para mim a boa música é resultado de coração e cabeça. Sertanejos ou roqueiros, rappers ou evangélicos, quando o talento combina sensibilidade e inteligência, nascerá uma boa canção.Gosto dos Beatles, Luís Gonzaga, Stravinski, Gilberto Gil, isso me permite trabalhar com sons sem barreiras, criando música para teatro, cinema ou publicidade, como fiz nas trilhas de peças para alunos da ECA/USP, nos filmes Cangaceiro Trapalhão e Aventuras Da Turma Da Mônica, nos inúmeros jingles, spots ou trilhas para documentários institucionais para o banco Itaú, Mc’Donalds, Nestle, ETC.Então, quando minha companheira e parceira Cristina Reis sugeriu que comemorássemos meus 40 anos de música numa noite especial com a participação dos que estiveram comigo, ajudando-me a erguer parede por parede dessa fábrica, ocorreu-me logo chamar o evento de Sérgio Sá, Uma Fábrica De Sons.Vamos combinar: haveria nome melhor?
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O compositor, cantor e escritor Sérgio Sá


